A dilacerante situação de Bergamo, a cidade italiana que não tem como cremar seus mortos

Os crematórios funcionam 24 horas por dia, mas sua capacidade máxima é de 25 cadáveres diários. Por isso as autoridades pediram aos militares que transportassem os caixões para outras cidades próximas, que se ofereceram para cremá-los. Na província, onde vivem pouco mais de um milhão de pessoas, existem 4.305 casos confirmados de coronavírus, segundo as autoridades, e cerca de 500 morreram, conforme noticiado pela imprensa local, já que a administração não fornece números oficiais de mortes por província, apenas por região.

Por jurandanews em março 21, 2020
© FOTOGRAMMA (Paper) Funcionários de uma funerária preparam caixões em Bérgamo.

As imagens que chegam de Bérgamo, a província mais afetada pelo coronavírus, são devastadoras. Na noite de quarta-feira, uma longa procissão de caminhões blindados do Exército tirou da cidade setenta caixões que se acumulavam no cemitério local, completamente sobrecarregado pela emergência. São tantos os mortos em apenas uma semana que as funerárias não dão conta e os caixões se acumulam nos cemitérios e nas igrejas, onde nenhum tipo de cerimônia pode ser oficiada, tampouco os funerais.

Os crematórios funcionam 24 horas por dia, mas sua capacidade máxima é de 25 cadáveres diários. Por isso as autoridades pediram aos militares que transportassem os caixões para outras cidades próximas, que se ofereceram para cremá-los. Na província, onde vivem pouco mais de um milhão de pessoas, existem 4.305 casos confirmados de coronavírus, segundo as autoridades, e cerca de 500 morreram, conforme noticiado pela imprensa local, já que a administração não fornece números oficiais de mortes por província, apenas por região.

O obituário do jornal local L’Eco di Bergamo passou de uma ou duas páginas para onze na última semana. O diretor do jornal, Alberto Ceresoli, o definiu como “um boletim de guerra”. “É um drama, nossos idosos se vão”, disse aos meios de comunicação. Um dos obituários é o de Antonio Ardenghi, de 82 anos, pedreiro e empregado de uma fábrica que vivia na localidade de Nembro e também era membro do Corpo dos Alpini, o grupo de montanha do Exército italiano. Seus companheiros o chamavam de “a rocha” por sua fortaleza física. Não foi realizado um funeral em seu nome e a família não pôde se despedir dele porque está isolada em casa em quarentena. Situações semelhantes se repetem em todo o país. É a parte humana que está por trás de números chocantes.

Bérgamo, na região da Lombardia, tornou-se a imagem do colapso do sistema de saúde diante da pandemia. Seu principal hospital, o Giovanni XXIII, ficou sem leitos na UTI, está transferindo pacientes para outras clínicas em outras regiões e precisa desesperadamente de pessoal sanitário e de materiais, conforme enfatizou em um vídeo nas redes sociais Stefano Fagiuoli, diretor do departamento de Medicina do centro.

Na província de Bérgamo, preocupa especialmente o aumento de mortes em casas de repouso. As autoridades, o pessoal sanitário e os parentes dos doentes alertaram para esse fenômeno que também acontece em outras zonas da Lombardia. Como a região só faz testes para detectar o coronavírus em pessoas com sintomas graves, cada vez mais autoridades e médicos consideram que os números oficiais do coronavírus são apenas parciais.

O prefeito da cidade de Bérgamo, Giorgio Gori, alertou para “um número significativo de pessoas que morreram mas cuja morte não foi atribuída ao coronavírus porque morreram em casa ou em um lar de idosos e, portanto, não foram testadas”. Gori disse à agência Reuters que em sua cidade, de 120.000 habitantes, 164 pessoas morreram nas duas primeiras semanas de março, 31 com coronavírus, segundo dados oficiais. O número é alarmante se comparado às 56 mortes que ocorreram no ano passado no mesmo período. O prefeito sugeriu que o vírus poderia ter causado um número de mortes superior ao mostrado pelos registros oficiais. “Todos os prefeitos da região estão contando nestes dias em suas cidades um número muito elevado de mortes. Ontem liguei para vários prefeitos e em 13 cidades o número de mortos na primeira metade de março é 4 vezes maior que no ano passado”, disse Gori. E acrescentou: “Nem todos podem ser levados aos hospitais, muitas pessoas estão morrendo em casa ou em casas de repouso”.

Na província de Cremona a situação é semelhante. Segundo o Corriere della Sera, na semana passada 18 pacientes morreram em um único dia, com sérios problemas respiratórios, em uma casa de repouso de 460 lugares. Outra de Mediglia, perto de Milão, registrou 25 mortes nos últimos 23 dias.

Embora o aumento das mortes seja atípico, na ausência de dados oficiais e de evidências detalhadas não é possível saber exatamente quantas mortes em casas de repouso podem ser atribuídas ao Covid-19 ou a outras causas, como a gripe sazonal.

Os médicos do Hospital Giovanni XXIII de Bérgamo explicam que as características do novo coronavírus permanecem inalteradas, mas a situação é complicada porque os pacientes chegam cada vez mais tarde aos hospitais, muitos saturados, e em condições mais graves.

Nos últimos dias a Defesa Civil começou as gestões para construir um hospital de campanha no pavilhão de feiras de Bérgamo para atender os pacientes do Covid-19, mas o projeto foi interrompido devido à falta de pessoal e de meios.

GALERIA DE LOCAIS PELO MUNDO ANTES E DEPOIS DO IMPACTO DO CORONAVÍRUS:

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